sábado, 31 de outubro de 2015

A verdeira ideologia de gênero está na Bíblia



"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado* que qualificam o feminino" – Simone de Beauvoir, trecho do texto citado no Enem.


* Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou cortado o membro viril, não entrará na congregação do SENHOR – Deuteronômio 23: 1 (Versão Almeida Corrigida e Revisada)

Na versão João Ferreira de Almeida, o texto acima fica assim:
O quebrado de quebradura ou castrado não entrará na congregação do SENHOR.

Jackson Lima

Minha filha de sete anos, dias atrás, me corrigiu. “Pai, homem não senta assim. Senta assim”, e demonstrou como homem deve sentar, como homem deve cruzar as pernas, como o homem deve olhar as unhas para ver se elas estão cortadas. Quem ensinou essa velharia a ela? Meus filhos lembravam que quando eram crianças enrolavam a toalha no corpo até a altura do peito. Lembraram que embrulhavam a cabeça na toalha como se fosse um turbante. Riam, porque só mulher faz isso. Isso é biológico? É psíquico ou é aprendido?

Não faz muito tempo, as mulheres transportadas em bicicletas,  lambretas, motos e até cavalos sentavam-se de lado. Esta semana me surpreendi com uma mulher sentada de lado em uma moto em uma avenida Foz do Iguaçu. Dentro do ônibus as mulheres discutiam. Por que ela vai de lado se ela está de calça cumprida? Parte da razão de mulheres andarem de lado na garupa de cavalos ou veículos de duas rodas era a saia ou o vestido. Evitava que abrissem as pernas e enviassem mensagens sexuais aos homens.  A chegada das bicicletas de quadros femininos ou das motos estilo Bis deu libertou as mulheres para pilotarem as bicicletas. Mas, no caso das motos modernas, uma mulher sentada de lado, na garupa, parece correr muito risco em caso de acidentes em alta velocidade.

Os políticos da chamada “bancada evangélica” ou dos “neocristãos anticristo” gostam de taxar como ideologia de gênero as discussões sobre a conscientização contra a violência de gênero. É como se quisessem dizer que não existe violência de gênero, não existe violência de homem contra a mulher e que o que existe são casos isolados que devem ser detectados, identificados e punidos. Esquecem contudo que ideologia é direito do poder. A ideologia pertence ao poder. Para o professor e linguista José Luiz Fiorin **, a ideologia “é uma visão de mundo ou seja o ponto de vista de uma classe social a respeito da sociedade, a maneira como uma classe, ordena, justifica e explica a ordem social”.   

E a verdadeira ideologia de gênero, no caso dos cristãos está na Bíblia, no Velho Testamento e é repercutida no Novo Testamento. Na ordem social da sociedade patriarcal a mulher tem tido um segundo lugar e ele é justificado e explicado por um discurso específico e todo seu.   

O Velho Testamento está cheio de exemplos em que os homens, donos do poder, fizeram leis que não só controlava a mulher como a discriminava. O Velho Testamento taxava a mulher como suja e imunda. Imunda durante a menstruação e imunda no parto e depois dele. Depois de dar à luz a um menino-homem, a mulher era considerada imunda por sete dias e após a circumcisão no oitava dia ela permanecia mais 33 dias de resguardo de limpeza Porém se em vez de um menino nascesse uma menina-mulher, prazo de sua imundície dobrava para 14 dias (duas semanas). Dobrava também o prazo geral de limpeza que era de 66 dias, durante os quais, ela não poderia entrar no templo nem tocar ou ser tocada por coisa santa. O que faz da mulher mais suja que o homem? Diz Levítico:

“Se uma mulher conceber e der à luz um menino, será imunda sete dias, assim como nos dias da separação da sua enfermidade, será imunda” (2: 2)
“Mas, se der à luz uma menina será imunda duas semanas, como na sua separação; depois ficará sessenta e seis dias no sangue da sua purificação” (2:5)

O Velho Testamento apresenta uma coleção de paisagens que mostram que quem manda é o homem e que o home leva vantagem em vários aspectos. Um dos aspectos é o da virgindade. Veja qual é a instrução no caso em que um homem se casa com uma moça e depois alardeia que ela não era virgem. Como se resolve este problema? Deuteronômio 22: 13 – 18  instrui:

Quando um homem tomar mulher e, depois de coabitar com ela, a desprezar,
E lhe imputar coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher, e me cheguei a ela, porém não a achei virgem;
Então o pai da moça e sua mãe tomarão os sinais da virgindade da moça, e levá-los-ão aos anciãos da cidade, à porta;
E o pai da moça dirá aos anciãos: Eu dei minha filha por mulher a este homem, porém ele a despreza;
E eis que lhe imputou coisas escandalosas, dizendo: Não achei virgem a tua filha; porém eis aqui os sinais da virgindade de minha filha. E estenderão a roupa diante dos anciãos da cidade.
Então os anciãos da mesma cidade tomarão aquele homem, e o castigarão.

No caso deste constrangimento e falso testemunho à honra do pai da moça, a lei prevê que caluniador ou aproveitador pague uma multa de 100 siclos de prata ao progenitor ofendido e que depois disso, o violador da confiança leva a mulher para casa e viva com ela pelo resto de suas vidas.
Mas, o que acontece caso a moça realmente não for virgem. A situação ou o “negócio” termina de maneira diferente e a mulher é condenada à morte. Deuteronômio 22: 20 e 21 conclui:

Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça,
Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti.

Note que quem executa a mulher são “os homens de sua cidade”. Uma cena que não deve ser agradável de se ver e testemunhar em lugar nenhum do planeta. A mulher nada mais é, pelo que se desprende do texto, que um detalhe econômico. Sugere a pesquisadora e ex-evangélica americana Valerie Tarico (PhD), que as transações de casamento envolviam dinheiro e dotes daí coisas deste estilo serem resolvidas por multas pagas em benefício do pai ou morte quando culpada para a mulher. Neste caso para o pai e para a família do patriarca resta a humilhação e a desgraça por não produzirem mulher boa e validada pela sua virgindade.  

Na maioria de nossos países entre eles o Brasil, a Argentina, Colômbia, Paraguai – países de minha convivência – existe uma espécie de moral conservadora que tende a declarar a vítima como culpada em casos de estupro. As vítimas provocam por usarem roupas provocativas, por andarem tarde na noite ou por qualquer outro motivo que se possa imaginar. Há quem sugira até que a vítima gostou e que se não tivesse gostado teria lutado para defender a si mesma. Infelizmente, o livro de Deuteronômio parece concordar com isso ao tratar de um estupro cometido contra uma virgem casada* encontrada na rua por um homem que se deita com ela. O ato é digno de punição para os dois. A moça foi considerada culpada  por não ter gritado. Dizem os versículos 23 e 24 do capítulo 22 do livro de Deuteronômio:

Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela,

Então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo; assim tirarás o mal do meio de ti.


A questão de gritar ou não gritar pode significar vida ou morte. Nos versículos seguintes, 25, 26 e 27 ao se comentar uma outra possibilidade de crime se lê:

E se algum homem no campo achar uma moça desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, então morrerá só o homem que se deitou com ela;

Porém à moça não farás nada. A moça não tem culpa de morte; porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo, e lhe tira a vida, assim é este caso.
Pois a achou no campo; a moça desposada gritou, e não houve quem a livrasse.

Decepar mãos como forma de punição é algo raro no mundo. A lei islâmica prevê o castigo para ladrões e Jesus mencionou a possibilidade de decepar mãos de maneira simbólica quando disse:

Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-       o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno Mateus 18:8
    
Ele falava sobre a seriedade da necessidade de evitar causar escândalos e fazer outros tropeçarem ou servirmos como pedras de tropeço. A interpretação destes assuntos não é parte de meus humildes propósitos neste momento. O que quero destacar aqui é o único motivo para que se decepem mãos humanas e mais especificamente a mão de mulheres. Veja qual é o motivo:
 
“Quando pelejarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar a seu marido da mão do que o fere, e ela estender a sua mão, e lhe pegar pelas suas vergonhas,
Então cortar-lhe-ás a mão; não a poupará o teu olho. Deuteronômio 25:  11 e 12

Na versão Judaica Ortodoxa da Bíblia, a palavra mão (kaf) utilizada no texto, não se refere a mão em si, mas a parte interna da mão, a palma da mão que forma uma concha. Essa parte seria cortada, o que aumenta ainda a brutalidade do castigo pelo crime e ousadia da mulher em agarrar o sacro-santo símbolo da masculinidade e o símbolo de poder da sociedade israelita feita e pensada pelo homem: suas vergonhas, partes vergonhosas ou como diz a versão Vulgata Latina "verenda eius", suas "verendas".


Continua ...
     

Nenhum comentário: